INTERACÇÃO

November5th

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Indiferença

Posted in: Política

indiferenca

“É evidente que nenhum homem tem obrigação de se dedicar totalmente à eliminação do que está errado, por muito monstruoso que o erro seja; toda a gente tem o direito de se dedicar a outras actividades mais convidativas. Mas é seu dever, pelo menos, lavar as mãos e, no caso de desistir de pensar mais no assunto, tem de fazer por não dar, na prática, apoio à iniquidade. Posso dedicar-me a outros objectivos e a outras contemplações, mas tenho de verificar primeiramente se, para o fazer, não estou a pisar outro homem. É minha obrigação não o pisar, pois estou a impedi-lo de realizar as suas contemplações. Vou dar um exemplo da inconsistência grosseira que às vezes tenho que aturar. Ouvi já dizer a alguns dos meus conterrâneos: «Quem me dera receber ordem para ajudar a escorraçar uma insurreição de escravos ou para marchar até ao México… Não iria, de certeza». A verdade, porém, é que estes senhores mandam sempre alguém no seu lugar: indirectamente, mantendo-se fiéis ao governo, e directamente, pagando a quem os substitua. Aplaude-se o soldado que participa numa guerra injusta, aplaudem-no até aqueles que apoiam o governo injusto por quem é feita a guerra; aplaudem-no aqueles cuja acção e autoridade o soldado desrespeita e despreza. Como se o governo, arrependido, contratasse um carrasco para o açoitar quando peca, embora o seu arrependimento não seja suficiente para deixar de pecar. Deste modo, em nome da Ordem e do governo, todos estamos de acordo em prestar homenagem e dar apoio à nossa própria cobardia. Coramos depois do primeiro pecado, mas sobrevém logo a indiferença. De imoral, esta torna-se não-moral e absolutamente necessária para a vida que levamos.”[i]


[i] THOUREAU, Henry David, A Desobediência Civil – Defesa de John Brown, Lisboa, Antígona, Fevereiro de 2005, pp. 25-26

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